Como foi o Natal de vocês? Espero que tenha sido uma noite de muita paz, reflexão e harmonia.
O meu Natal foi como sempre. Na sexta marido saiu mais cedo do trabalho e pegamos a estrada. Uma hora e meia depois chegamos ao nosso destino: a casa de praia dos meus pais. À noite chegaram minha tia, tio, primo e irmão. Minha tia, irmã de mami, tem casa na mesma rua.
No sábado foi um dia típico de casa de praia: muita comilança, muitas risadas, piscina, brincadeiras e música. O dia só não foi tão perfeito pq fomos ao hospital visitar meu avô (contarei sobre isso depois).
No domingo, véspera de Natal, foi mais um 24 de dezembro típico: minha mãe e tia suando na cozinha pra preparar a ceia natalina enquanto todos os outros ficam na piscina, dormem, vêem TV, etc.
Eu já disse que, quando fizer o Natal na minha casa, vai ser diferente. Cada um vai levar um prato, senão algumas pessoas ficam sobrecarregadas, enquanto outras não fazem nada. Pelo menos éramos só oito nesse Natal. Eu tentei ajudar como pude. Não sei cozinhar, mas cuidei da limpeza da cozinha, lavei louça, varri a casa, arrumei a mesa da ceia, molhei o pão na mistura da rabanada…hahaha. Marido se ofereceu para fritar as rabanadas, pois já era 20h e mami e tia ainda suavam na cozinha. Dos homens, ele é o único que se oferece toda hora pra ajudar.
Lá pelas 21h nós quatro finalmente saímos da cozinha. Meu pai, irmão e tio foram visitar meu avô no hospital e levar alguns quitutes da ceia (à noite ele só pode ser visitado por homens, pois está na ala masculina).
Quando eu acabei de sair do banho, faltou luz. Foi hilário. Ninguém sabia onde tinha fósforo, a chuva e o vento faziam estragos no quintal, uma mesa com guarda-sol caiu dentro da piscina, tivemos que correr pra fechar todas as janelas da casa e eu fazia tudo isso, só de calcinha e sendo perseguida pela minha cachorra, que sempre que tem medo vem me procurar.
Quando encontramos os fósforos e acendemos as velas natalinas (que só assim foram usadas…hehe), minha mãe decidiu encarar a água fria e tomar banho. Ela odeia água fria. Fiquei com pena e fui correndo esquentar água pra ela e quando mami acabou de jogar sua última canequinha de água quente no corpo, a luz voltou. Rimos muito.
Logo depois meu pai, irmão e tio voltaram do hospital e nos sentamos à mesa pra começar o festival da gula. Todo ano minha mãe e tia falam que vão fazer menos comida, que sempre tem muito desperdício e bla bla bla. Mas mesmo assim tem sempre coisa de mais na mesa (pelo menos na minha opinião).
Comemos, bebemos, falamos besteiras como sempre, rimos, brindamos e à meia-noite nos abraçamos, trocamos presentes e ficamos batendo papo até a hora do sono me derrubar.
Meu avô
Quem me vê falando do meu avô, acha que sou a mais desnaturada das netas. Ele foi internado na semana que estávamos na Disney (final de outubro) e só dia 23 de dezembro fui visitá-lo.
Fiquei chocada com o que vi. Sabia que ele estava magro e havia sofrido uma colostomia de emergência, mas não imaginava que estivesse daquele jeito.
Subi com minha mãe até o quarto que ele fica. Havia quatro camas, mas da porta eu só vi três. Duas delas estavam vazias e em uma estava uma pessoa toda encolhida, com aparência de esqueleto. Era o meu avô. Nessa hora já fiquei com o choro entalado na garganta e minha mãe percebeu. Tentei ser forte e me aproximei dele. O choque foi ainda maior. Suas pernas parecem estar atrofiadas, a bolsa da colostomia estava cheia de fezes e gases e dava pra contar os ossos de sua costela. Minha mãe logo o cobriu com um lençol para esconder o saco da colostomia.
Não sei se ele me reconheceu, apesar de estar lúcido. Ele não estava muito falante. Me olhava algumas vezes, falava algumas coisas com minha mãe e voltava o olhar pra TV que meu pai colocou no quarto. Apertei sua mão, fiz carinho no seu cabelo branquinho (da última vez que o vi, no início de outubro, seu cabelo não era dessa cor…era só grisalho), não sabia o que dizer e apenas segurava sua mão. Ele me perguntou se eu estava animada para o Natal e tive mais uma vez que engolir o choro. Como eu estaria animada com o Natal vendo ele daquele jeito? Minha mãe percebeu que eu estava ficando pálida e falou que era melhor eu descer e chamar os outros pra subir (só podia subir dois visitantes de cada vez e toda minha família estava lá embaixo). Me despedi dele. Ele só me olhou com os olhos caídos, assentiu com a cabeça e voltou a olhar a TV.
Saí pelo corredor atordoada. Chegando lá embaixo, disse pro meu irmão subir e saí andando o mais rápido que pude em direção à praia, com o marido me seguindo. Lá pude chorar e tirar do peito toda aquela dor que senti.
Meu avô já fez muita besteira, é mentiroso, prepotente e fez minha vó e as filhas sofrerem muito, mas ninguém merece isso que ele está passando. Aquele ditado “aqui se faz, aqui se paga” deve ser verdadeiro.
Minha vó morreu com apenas 52 anos, eu tinha 10 na época. Foi uma morte repentina e que até agora não foi explicada. Ela foi internada com problemas de tireóide e, em poucos dias, faleceu. Na missa de sétimo dia, meu avô apareceu com uma mulher, que apresentou a todos como uma amiga. Essa amiga se mudou dias depois pra casa que ele morava com minha avó. Minha mãe e tia se revoltaram com essa atitude. Não era justo ele fazer isso com a memória da mãe delas. E, então, tudo mudou.
Elas mantiveram o diálogo com ele, mas não aceitavam a outra mulher, nunca mais foram na casa dele (que era do lado da nossa) e eu perdi o amor de vô. Não fui influenciada por minha mãe. Apenas aconteceu. Ele se afastou, nós nos afastamos. Um tempo depois, ele e a mulher se mudaram pra outro estado. No Natal ele aparecia e passava algumas horas com a gente, depois voltava pra casa.
Há uns 7 anos que a outra mulher também faleceu e ele começou a passar as festas de fim de ano nas casas de praia das filhas. As duas o tratam bem, mas não existe uma relação de pai e filha como eu e meu pai temos. Não existe amor paterno.
E agora ele está nesse estado e algumas pessoas se ocupam em criticar o “descaso” da minha mãe e da minha tia. Acham que elas deveriam jogar tudo pro alto pra cuidar do pai que nunca as amou como um pai deve amar um filho. É claro que elas estão abaladas com a situação dele, mas ninguém pode culpá-las por não o visitar todos os dias, por não o terem levado pra casa na noite de Natal (o médico não deixaria também), etc. Como fazer crescer o amor depois de tanta mágoa? Minha mãe, quando o visitou pela primeira vez, me disse que se emocionou quando ele pegou sua mão, apertou forte e começou a fazer carinho. Ela disse que foi a primeira vez que recebeu um gesto de carinho dele.
Só quis contar um “pedacinho” da história da família para que vcs possam ver que só nós sabemos cada alegria e cada tristeza que carregamos dentro do peito.
Uma ótima semana a todos!